Estudantes da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) mobilizaram um ato pedindo o afastamento cautelar dos alunos envolvidos em casos de misoginia, sexismo, homofobia e racismo contra estudantes do curso de Engenharia do Petróleo. A manifestação ocorreu na noite de segunda-feira, 18, no campus da Udesc em Balneário Camboriú, e contou com depoimentos das vítimas, familiares e também de autoridades.
A comunidade acadêmica esteve presente com cartazes, faixas e bandeiras pedindo um ambiente seguro dentro da universidade. Entre as frases de ordem estavam: “Não foi brincadeira, foi violência”, “Compartilhar sem consentimento também violenta”, “Educação antissexista também é prevenção”, “Universidade segura é para todas as identidades”.
No momento da fala, uma das vítimas de 24 anos, ressaltou que teve uma crise de pânico ao saber o que tinha acontecido e passou a utilizar medicação após esse episódio. O caso foi descoberto no mês de maio, mas só chegou à mídia em agosto.
A vítima ainda fez um agradecimento à jovem que teve acesso às conversas e alertou as estudantes da Udesc. “E essa pessoa não teve acesso totalmente ao grupo. Então, o
que ela pôde ler, ela já ficou muito mal e eu acho isso muito importante. Eu gostaria que todo mundo que está apoiando essa causa, também apoie essa pessoa, porque sem ela a gente não teria movimento nenhum”.
De acordo com a estudante, nas mensagens desse grupo há, sim, conteúdo que envolve homofobia, comentários sexistas, misóginos e racistas. “E a questão do estupro é, sim, bem escancarada. Criação de conteúdo +18 feitos por Inteligência Artificial, com fotos das meninas”. Ao todo foram encaminhados 17 áudios pela jovem que descobriu as conversas.
Outra vítima, de 22 anos, que também participou do ato, enfrentou uma situação diferente das demais acadêmicas na descoberta das conversas. Ela não teve suas aulas no formato EAD e precisou participar das mesmas aulas que os estudantes acusados de forma presencial.
“Eu ter que ficar sentada na mesma sala que os meus agressores, foi um momento, acho que o mais terrível da minha vida, talvez. Ter que entrar na sala, procurando para sentar, e um dos únicos lugares era do lado dele. O que tu acha que eu senti? A pessoa te cumprimentar depois de levar a orientação de não falar mais com a vítima. Então, eu fiquei com algum trauma, que é de ter que (conviver com eles na sala de aula), e eu não precisava ter. Eu precisava ter sido protegida. A gente precisava ser protegida”, desabafou a jovem.
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Relato da mãe de uma das vítimas
Luciana Corrêa Pereira é mãe de uma das vítimas, que atualmente está em acompanhamento psicológico por conta da situação. A filha teve aulas online por um mês e precisou retornar ao ambiente acadêmico de forma presencial.
“Minha filha teve que retornar à aula agora, e eles lindamente andando pela faculdade, isso é um absurdo, eu tô aqui representando mães que não puderam estar aqui hoje que estão lá com a mesma minha dor, porque não aconteceu nada ainda, ainda, mas pode acontecer”, comenta indignada.
Segundo a mãe, a filha mora a poucos metros da universidade, mas está dependendo de transporte por aplicativo por ter medo de caminhar na rua. Ela pede que os alunos que cometeram esses crimes sejam excluídos da universidade.
“Nós mulheres queremos uma resposta. Minha filha, hoje não é a mesma. E quando eu vim matricular ela, não era isso que nós esperávamos”.
A manifestação pede à Udesc:
- Resposta da sindicância investigativa da UDESC;
- Resposta da reitoria: porque 3 meses de silêncio; porque a demora para executar a comissão; queremos expulsão cautelar até o fim da investigação criminal;
- Alteração do Regimento interno da Udesc a fim de acrescentar um penalidade de afastamento cautelar no caso de denúncias de misoginia, racismo, gordofobia e lgbtfobia;
- Pedido da Udesc para Federação da Empresa Junior (FEJECS) para banir os acusados dos eventos até o fim da investigação criminal;
- Divulgação do abaixo-assinado.
Diretoria da Udesc esteve na manifestação
O diretor-geral da instituição, professor Oséias Alves Pessoa, participou do ato e se posicionou após alguns depoimentos de alunas e mães. Ele iniciou a fala pedindo desculpas às alunas pelo episódio, destacando que a Udesc não aceita qualquer tipo de preconceito.
Ele ressaltou que pediu ajuda para encontrar uma forma de implementar o regime disciplinar da universidade com uma medida cautelar de afastamento dos estudantes investigados enquanto durar a apuração.
“Nós conseguimos propor, portanto, uma forma de implementar o regime disciplinar, já com uma cautelar, com uma cautelar de afastamento, enquanto durar, então, a investigação”.
O diretor também afirmou que os encaminhamentos relacionados ao caso foram realizados dentro dos prazos previstos pelo regimento da instituição. O processo agora será analisado e investigado por uma comissão designada pelo Prof. Dr. José Fernando Fragalli, reitor da Universidade do Estado de Santa Catarina, em Florianópolis. “E o tempo de uma comissão, para ela exarar o relatório, no mínimo, é 30 dias, podendo ser renovado por mais 30 dias”, afirmou.
O processo também está sendo investigado pela Polícia Civil de Santa Catarina.
Abaixo-assinado
Alunas criaram um abaixo-assinado intitulado “Por uma Udesc segura: afastamento cautelar dos estudantes investigados”, solicitando a adoção das medidas cautelares cabíveis até a conclusão da investigação por parte da Udesc.
A assinatura pode ser realizada por meio do abaixo-assinado disponível clicando aqui.

