Antes dos arranha-céus que transformaram Balneário Camboriú em um dos destinos turísticos mais procurados do Brasil, a paisagem era outra. Após 62 anos de emancipação político-administrativa, o que ficou da antiga cidade?
A historiadora Mariana Schlickmann relata que o município começou a ganhar fama justamente pela natureza preservada. As famílias vinham para veraneio nas praias, enquanto lagoas e áreas úmidas faziam parte da paisagem do Centro e da Barra Norte.
“Era um mar tranquilo, limpíssimo, virou um ponto turístico porque era uma praia muito boa para vir com a família, as pessoas vinham passar o verão inteiro em Balneário Camboriú porque era uma praia deliciosa, um mar tranquilo, muitos peixes, frutos do mar, uma pesca muito forte. Tinha as duas lagoas, então era um lugar realmente paradisíaco”, destaca.
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Segundo o professor Marcus Polette, pesquisador e especialista em gestão costeira, a urbanização acelerou principalmente a partir das décadas de 1950 e 1960 e ganhou ainda mais força com a construção da BR-101 nos anos 1970.
“Até 1930, 1940, tem fotografias da Praia Central, onde a composição da paisagem era de praias, dunas, pequenas dunas e uma grande restinga que praticamente ocupava toda a planície da Praia Central”, afirma.
Mesmo conhecida pela intensa verticalização, Balneário Camboriú ainda preserva áreas importantes de Mata Atlântica, como conta o especialista em Direito Ambiental, Gil Koeddermann.
“Em uma cidade como é a nossa, vertical, você concentra 80% da população em 20% da área, então nós ainda temos, apesar de as pessoas não acreditarem, 50% de vegetação de Mata Atlântica nativa preservada. Nós temos 1,1% de todo o nosso território com mangues, que há 20 anos atrás era 0,8%”, explica.
Praias agrestes
Balneário Camboriú possui a Área de Proteção Ambiental (APA) Costa Brava, que abrange o trecho preservado das praias agrestes cortado pela Avenida Rodesindo Pavan (Interpraias): Laranjeiras, Taquarinhas, Taquaras, Pinho, Estaleiro e Estaleirinho.
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O plano de manejo da APA estabelece regras para o ecoturismo e proíbe a construção de arranha-céus naquela região, para proteger a fauna e a flora e visando o desenvolvimento sustentável da região.
“Eu acho que o que ainda preserva a Balneário Camboriú antiga é a Ilha das Cabras, também as praias agrestes, são o que mais lembram essa Balneário Camboriú, essa beleza natural”, ressalta a historiadora Mariana.
Rio Camboriú e cursos d’água
Além das praias, há outro patrimônio considerado estratégico para o futuro da cidade: o Rio Camboriú, responsável pelo abastecimento de água de Balneário Camboriú e da cidade-mãe, Camboriú.
Polette fala sobre a necessidade de preservar o curso d’água. “O Rio Camboriú é o grande patrimônio que nós temos, pensar na conservação do Rio Camboriú. Ele é essencial para toda a sociedade, seja quem for, tomadores de decisões, empresários, homens, mulheres, crianças, adultos, ou seja, todo mundo depende desse rio. Não adianta só ter abastecimento de água, se essa água não for também de qualidade”.
Também acreditando em medidas que preservem o Rio Camboriú, Gil Koeddermann compartilha um sonho para o futuro.
“Eu tenho uma expectativa, é ver o meu Rio Camboriú despoluído novamente. Balneário Camboriú tem que ganhar esse presente. O Rio Camboriú despoluído, o Rio Peroba, o Rio das Ostras, o ribeirão Ariribá. Esses cursos d’água têm que ser revitalizados. Tem toda essa gama futurista, mas agora eu quero voltar ao passado porque eu quero voltar a tomar banho no Rio Camboriú como eu tomava quando era pequeno”, relembra.
Preservação ambiental depende de planejamento
Para o pesquisador Polette, conservar a natureza exige planejamento urbano aliado à proteção ambiental. “Se a gente for pensar a Praia Central, é uma praia que hoje não é natural, houve um incremento da faixa de areia, então ela perdeu basicamente grande parte das suas funções ecológicas”, relatou.
Na visão do professor, é possível desenvolver medidas de adaptação, por meio de soluções baseadas na natureza. “É o caso que está acontecendo, por exemplo, ao longo da Praia Central, com um plantio de espécies de dunas, de restinga, são quatro espécies que estão sendo implementadas, é uma situação já até positiva que a gente vê, mesmo num ambiente que foi alterado.”
Entre as memórias de uma cidade cercada por lagoas e restingas e os desafios futuros, Balneário Camboriú chega aos 62 anos com uma certeza: preservar suas belezas naturais é também garantir qualidade de vida para as próximas gerações.
“Para mim, o lugar mais lindo de Balneário é a Praia de Taquarinhas. Quando eu vou e fico no mirante olhando a grandeza, é impressionante ver ainda uma área toda coberta de Mata Atlântica, aquela praia incrível. É pensar que daqui a 100 anos muitas crianças, jovens e adultos pudessem chegar ali e ver essa mesma paisagem”, conclui Polette.
Veja fotos atuais das Praias Agrestes (na ordem: Laranjeiras, Taquarinhas, Taquaras, Pinho, Estaleiro e Estaleirinho):
Veja fotos da antiga Balneário Camboriú, armazenadas no Arquivo Histórico Municipal:

