Neste domingo, 5, Camboriú completa 142 anos de história. A formação do município seguiu um processo considerado comum para a época, marcado pelo crescimento gradual de povoados até a consolidação administrativa da cidade, sem episódios considerados extraordinários em sua origem.
De acordo com o escritor e historiador Isaque de Borba Corrêa, a principal controvérsia histórica não está na fundação em si, mas na mudança da sede administrativa ao longo dos primeiros anos. Inicialmente instalada na região da Barra, a sede foi transferida posteriormente para a então Vila Garcia, atual Centro, decisão que gerou divergências entre moradores e ainda hoje provoca debates sobre a identidade histórica do município.
A ocupação da região remonta a períodos anteriores à oficialização da cidade. Os primeiros núcleos foram formados por famílias vindas de Florianópolis, à época chamada de Desterro, com destaque para os descendentes de Tomaz Francisco Garcia. Há registros de presença humana na região desde o século XVII, especialmente na área da Barra.
O avanço para o interior, no entanto, ocorreu de forma gradual e enfrentou resistência indígena. Um dos episódios mais marcantes ocorreu em 1836, quando uma incursão indígena resultou na morte de dezenas de moradores, representando um impacto significativo para uma população que, naquele período, era reduzida.
A identidade cultural de Camboriú foi moldada por três pilares principais: a tradição rural, a religiosidade,inicialmente predominante católica, e a forte influência da cultura portuguesa. Essa herança ainda pode ser percebida em práticas comunitárias, festas tradicionais e no modo de falar da população local, mesmo com as transformações ao longo do tempo.
A influência açoriana também está presente, embora mesclada a outras origens culturais, como a dos chamados vicentistas, vindos da região de São Francisco do Sul. Essa combinação contribuiu para a formação de um sotaque e de costumes próprios, característicos da região.
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A relação histórica com Balneário Camboriú é um dos pontos centrais da trajetória do município. Durante décadas, as duas localidades permaneceram unificadas, até a emancipação da área litorânea em 1964. Segundo o historiador, Camboriú permaneceu mais tempo integrada ao território que hoje corresponde à cidade vizinha do que separada dele.
A divisão teve impactos diretos no desenvolvimento econômico. Enquanto Balneário Camboriú se consolidou com base no turismo, especialmente a partir da década de 1960, Camboriú manteve uma economia voltada à agricultura familiar, que enfrentou dificuldades diante das mudanças no cenário produtivo nacional.
Entre os marcos históricos que influenciaram o município, além da emancipação, estão a forte participação local na campanha republicana em Santa Catarina e eventos como o tufão de 1921, que deixou vítimas na região litorânea e marcou a memória coletiva da cidade.
Atualmente, Camboriú vive um novo momento de transformação. O crescimento urbano acelerado, impulsionado pela expansão imobiliária e pela proximidade com o litoral, tem alterado a dinâmica local e traz desafios relacionados à mobilidade e à infraestrutura.
Para o historiador, o município passa por uma fase de transição, deixando de ter um perfil predominantemente rural para assumir características urbanas mais consolidadas. Esse processo, segundo ele, tende a intensificar a valorização do território e atrair novos investimentos, ao mesmo tempo em que impõe o desafio de preservar a memória e a identidade cultural.
Com 142 anos, Camboriú segue em movimento, equilibrando passado e futuro em meio a um cenário de crescimento e reconfiguração urbana.
Matéria por: Manuela Córdova – estagiária de Jornalismo

