O Supremo Tribunal Federal conseguiu, nesta terça-feira, produzir uma cena que deveria constranger qualquer instituição de Justiça: ministros da mais alta Corte do país discutindo entre si, trocando acusações e questionando os próprios procedimentos diante das câmeras.
Não é apenas o que foi dito. É o que a cena representa. O julgamento que envolvia a possibilidade de investigação sobre Alexandre de Moraes, em meio ao caso Banco Master, deveria ser uma demonstração de serenidade, rigor jurídico e respeito absoluto aos ritos. Terminou expondo um Supremo rachado, com divergências sobre relatorias, impedimentos e a própria condução dos processos. A sessão foi suspensa depois de um pedido de vista de Flávio Dino.
E talvez o mais preocupante seja que isso já não pareça excepcional. O STF passou a ocupar um espaço gigantesco na vida política brasileira. Ministros dão declarações políticas, entram em debates públicos, interferem em conflitos entre Poderes e, agora, vemos integrantes da própria Corte protagonizando disputas internas que deveriam ser resolvidas com a frieza que se espera de magistrados.
A pergunta que fica é simples: quem fiscaliza quem? A sociedade não precisa acreditar cegamente no Supremo. Aliás, nenhuma instituição democrática deveria exigir isso. O cidadão tem o direito de questionar decisões, cobrar transparência e exigir limites.
E os números mostram que essa confiança está se deteriorando. A Pesquisa Datafolha divulgada neste mês aponta que 76% dos brasileiros consideram que os ministros do STF têm poder demais. Ao mesmo tempo, 77% dizem que a população está mais desacreditada da Corte hoje do que no passado.
Isso não pode ser tratado como barulho de rede social. É um sinal institucional. O Supremo pode discordar das críticas, pode contestar pesquisas, pode explicar suas decisões. O que não pode fazer é ignorar a percepção de que se afastou do cidadão comum. Porque Justiça que precisa ser constantemente explicada como imparcial talvez esteja enfrentando um problema maior do que uma simples crise de comunicação.
Hoje, infelizmente, o Supremo parece ter esquecido uma regra básica: antes de julgar o país, talvez seja hora de olhar para o próprio espelho. Porque quando os próprios ministros transformam o plenário em palco de confrontos, quem acaba no banco dos réus não é apenas um ministro ou outro. É a credibilidade da instituição inteira.