A criação de imagens falsas de mulheres e meninas com uso de inteligência artificial, as chamadas deepfakes, tem se tornado mais uma forma de violência de gênero e já chegou ao ambiente escolar. O alerta é da diretora do Departamento de Políticas Públicas para as Mulheres de Balneário Camboriú, Anna Nienkötter, que defende o debate sobre o tema principalmente entre adolescentes.
Em entrevista ao Canal 100 na última semana, Anna relatou que meninas têm sido vítimas de montagens com conteúdo sexual feitas por meio de inteligência artificial e posteriormente compartilhadas nas redes sociais. De acordo com ela, 97% dos casos registrados no país envolvendo esse tipo de violência têm mulheres e meninas como vítimas.
“Isso está acontecendo com meninas, isso está acontecendo dentro de escolas do nosso país, onde adolescentes estão fazendo este uso, colocando essas imagens dessas adolescentes na rede social, essa montagem com inteligência artificial.”
Para a diretora, embora a inteligência artificial possa ser utilizada para facilitar diferentes atividades, seu uso para criar conteúdos pornográficos falsos pode provocar consequências graves para as vítimas.
“Você pode estar acabando com a vida de uma menina. Por vezes, ela passar por uma situação dessa, ela não consegue nem ter uma relação saudável no futuro.”
Anna também defende que o assunto seja levado para dentro das escolas, como forma de prevenção e conscientização. Ela explica que a violência contra mulheres não se limita à agressão física ou doméstica e também envolve violência psicológica, assédio, importunação, stalking, violência política e crimes praticados no ambiente digital.
Violência começa ainda na adolescência
A diretora chama atenção para o ambiente escolar como um dos espaços onde a discussão sobre violência contra mulheres precisa começar. Ela cita casos de adolescentes que produzem e compartilham conteúdos sexualizados envolvendo colegas e alerta para uma cultura de misoginia que pode ter consequências graves.
Para Anna, comportamentos que parecem ser apenas “brincadeiras” podem causar danos profundos às vítimas e precisam ser enfrentados desde cedo.
“A nossa responsabilidade com os nossos atos, a responsabilidade dos adolescentes, dos meninos e de todos nós, de uma sociedade no geral, para que a gente possa olhar esses temas sensíveis, debater e mudar a realidade.”
A preocupação também se estende aos casos de violência sexual. Segundo Anna, mais de 60% dos estupros registrados no país envolvem vítimas vulneráveis, menores de 14 anos, e grande parte das vítimas são meninas.
Subnotificação ainda esconde parte da violência
Outro desafio apontado pela diretora é a dificuldade de dimensionar a violência contra as mulheres. Para ela, os números oficiais representam apenas os casos que chegam às autoridades, enquanto muitas vítimas permanecem em silêncio.
Estupros, assédios, importunações e outros tipos de violência muitas vezes não são denunciados. Anna afirma que a subnotificação pode ser ainda maior entre mulheres de classes sociais mais altas, que também enfrentam dificuldades para romper o silêncio.
“Muitas mulheres passam por situações de importunação e de assédio e sequer buscam fazer um boletim de ocorrência.”
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Ela reforça que a violência contra a mulher não está restrita a uma determinada classe social e pode acontecer tanto em áreas de maior vulnerabilidade quanto entre mulheres de classe média e alta.
Estelionato sentimental também preocupa
Entre as formas de violência que precisam ser mais debatidas está o chamado estelionato sentimental. Anna explica que o crime pode atingir principalmente mulheres adultas e financeiramente independentes que acabam estabelecendo relações afetivas com homens que, posteriormente, passam a pedir dinheiro ou contrair dívidas em nome delas.
Além do prejuízo financeiro, a vítima pode ficar emocionalmente abalada e, muitas vezes, não procura ajuda por vergonha. “O que eu venho trazer é que essas mulheres não silenciem. A gente precisa, de fato, mudar essa realidade, ser voz nesse mundo, porque ela não é culpada.”
Violência vicária passa a ser reconhecida
A violência contra a mulher também pode atingir pessoas ou animais que fazem parte do vínculo afetivo da vítima. Anna chama atenção para a violência vicária, conceito que passou a ser reconhecido no debate relacionado à Lei Maria da Penha.
Nessa modalidade, o agressor utiliza filhos, animais de estimação ou outras pessoas próximas para provocar sofrimento psicológico na mulher. “A violência vicária é um tipo de violência que o algoz usa, por exemplo, mata os animais ou mata os filhos, usa dessa rede de amor que essa mulher tem para atingi-la.”
A Lei Maria da Penha completou 20 anos na sexta-feira, 7. Para Anna, o reconhecimento de diferentes formas de violência mostra que o debate avançou, mas ainda existem muitos desafios.
Rede de proteção vai além da polícia
Anna também destaca que o enfrentamento à violência contra a mulher não pode ficar restrito à atuação policial. Em Balneário Camboriú, segundo ela, a rede de proteção envolve diferentes órgãos e serviços, entre eles a Rede Catarina, o Grupo de Proteção à Mulher da Guarda Municipal, a Delegacia da Mulher, o Abraço Mulher e a Casa Alva.
A Casa Alva atende mulheres que estão em situação de risco de feminicídio e precisam ser retiradas do ambiente de violência. O acolhimento pode incluir também os filhos, com suporte psicológico, alimentação e assistência para a reconstrução da vida.
A diretora também pede que a sociedade evite julgar mulheres que permanecem ou retornam a relacionamentos abusivos. Segundo ela, fatores como dependência financeira, emocional e preocupação com os filhos podem dificultar a ruptura do ciclo de violência.
Agosto Lilás tem ações em Balneário Camboriú
As discussões fazem parte da programação do Agosto Lilás em Balneário Camboriú. Ao longo do mês, a campanha “BC diz não à violência contra a mulher” promove ações de conscientização em escolas, universidades, bairros e espaços públicos.
Entre as atividades estão palestras, presença das redes de apoio na Feira da Orla, ações em centros comunitários e a circulação do Ônibus Lilás. Também estão previstas atividades voltadas aos homens, com discussões sobre relacionamentos abusivos e prevenção da violência.
Para Anna, levar o tema a diferentes espaços é fundamental para ampliar o conhecimento sobre os mecanismos de proteção e fazer com que mais mulheres reconheçam situações de violência.
“Quando a gente traz campanhas como essa, trazendo também as redes de apoio, para que todos nós, ao passar, ao olhar, reconheçamos que isso existe e que a gente tem que dialogar e, principalmente, que as mulheres saibam que em Balneário Camboriú as redes de apoio existem e estão aí para acolher da melhor forma.”
A diretora reforça ainda que a responsabilidade pelo enfrentamento à violência é coletiva e pede uma reflexão especialmente aos homens sobre comportamentos que, por muito tempo, foram naturalizados.
“Não é porque a gente fez algo há 20, 30 anos, que a gente vai continuar reproduzindo esse mesmo comportamento. É por isso que a gente busca essa evolução diária.”
Casos de violência contra mulheres podem ser denunciados à Guarda Municipal ao 153, à Polícia Militar pelo 193 ou pelo Ligue 180.
Veja a entrevista completa no Canal 100: