Uma cidade que abraça: as histórias que fazem Balneário Camboriú 

Em 23/07/2026
por Camili Guckert

“Cidade Hospitaleira, quem a conhece nunca mais a esquecerá”. Esse é um trecho do Hino de Balneário Camboriú. Localizada no Litoral Norte de Santa Catarina, a cidade tem uma história jovem. Afinal, completou 62 anos no dia 20 de julho, mas já conquistou destaque nacional e internacional. Uma economia que gira com várias mãos, vindas de diferentes estados do Brasil e cidades de Santa Catarina.

Andando pela Praia Central, é possível escutar inúmeros sotaques. Gaúchos, paranaenses, paulistas, cearenses, sergipanos e tantos outros estados estão representados por quem escolheu Balneário Camboriú para viver. Há também quem seja de Santa Catarina, mas de outras cidades. É muito mais comum encontrar pessoas que não nasceram no município, mas decidiram fazer dele o seu lar.

A estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de que, em 2025, o município tenha ultrapassado os 150 mil habitantes. Isso sem considerar a alta temporada, quando a população flutuante chega a ultrapassar os 500 mil moradores.

Os dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE sobre migração mostram que Santa Catarina foi o estado que recebeu o maior número de pessoas vindas de outras unidades da federação entre 2017 e 2022. O saldo migratório foi de 354,3 mil novos moradores.

Ao todo, Santa Catarina recebeu 503.580 imigrantes interestaduais. Em contrapartida, 149.230 pessoas deixaram o estado, o que resultou em um aumento de 4,66% da população total, a maior taxa de crescimento por migração no Brasil no período.

Ainda conforme o Censo, Santa Catarina possui uma população de 7.680.361 habitantes. Destes, 1.767.680 mil pessoas não são naturais do estado. Os dados mostram que 32,6% desse grupo nasceu no Rio Grande do Sul, o equivalente a mais de 576 mil pessoas.

Em seguida aparecem os naturais do Paraná, que representam 29% desse total, com mais de 512 mil habitantes, seguidos pelos paulistas, que somam mais de 190 mil pessoas.

Sotaques que fazem Balneário Camboriú

Entre os diferentes sotaques de uma população que veio de vários lugares do Brasil está o de Waltimar Bernardino Chagas, de 51 anos. Ele nasceu em Taguatinga, no Distrito Federal, mas cresceu e viveu boa parte da vida no Ceará. Não à toa, o apelido é “Ceará”. Em 1995, ele se casou e foi aí que começou a busca por uma vida nova.

A mudança para Balneário Camboriú aconteceu no mesmo ano. A irmã dele já morava no litoral catarinense e fez a “propaganda” da cidade, o que convenceu o casal a deixar o Ceará e tentar uma nova vida.

Waltimar recorda que a principal diferença foi a mudança climática, principalmente o frio de Balneário Camboriú. “Cheguei aqui, tudo diferente, coisa de tudo, um frio, né, porque a gente lá não tem frio. Sofri um pouco com o frio”.

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Ele também comenta sobre a dificuldade para encontrar emprego quando chegou à cidade. A esposa estava grávida da primeira filha do casal. “Quando fez um mês que eu estava aqui, aí eu arrumei esse emprego de lavação, ali na Quarta Avenida. E ali eu fiquei nove anos nessa lavação e ali foi onde foi tudo começando as dificuldades. Mas aí o povo, muito acolhedor, foram me ajudando, foram dando cama, outros deram um berço”.

A família conseguiu sair da casa da irmã e alugar uma kitnet. “Até então não sabia nem o que era kitnet, né, aluguei uma kitnet e a gente foi viver a vida”, relembra.

Ele ressalta que os dois primeiros anos em Balneário Camboriú foram os mais difíceis para a família, mas que, depois desse período, conseguiram construir uma nova vida. No entanto, a saudade da família sempre apertou. 

A esposa de Waltimar, Verônica, chegou a voltar para o Ceará para ver se a vida seria melhor por lá. Mesmo com as dificuldades enfrentadas em Balneário Camboriú, ela percebeu que as oportunidades encontradas em Santa Catarina ainda eram maiores.

Atualmente, Waltimar não se vê morando em outra cidade. “Nem pensar em sair daqui. Isso aqui é uma maravilha do Atlântico. A cidade é mágica como um todo”, afirmou, ainda encantado.

Argentinos em Balneário Camboriú

Assim como Waltimar deixou o Nordeste para recomeçar em Balneário Camboriú, milhares de pessoas cruzaram fronteiras em busca da mesma oportunidade. Entre elas estão os argentinos, que transformaram a cidade não apenas em destino turístico, mas também em lar. 

Há décadas, Balneário Camboriú recebe milhares de argentinos que passam o verão no município. Encantados pelas belezas naturais, muitos decidiram permanecer. Mais do que um destino turístico, a cidade passou a representar uma oportunidade de recomeçar a vida em outro país.

Essa história pode ser contada por José Esteban Puente, de 50 anos, nascido em Bariloche, na Patagônia argentina, conhecida pelas paisagens de tirar o fôlego. Mesmo vindo de um dos principais destinos turísticos da Argentina, ele escolheu as belezas de Balneário Camboriú para morar e construir a vida.

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Os pais de Esteban, também empresários, começaram a sentir os efeitos da crise econômica argentina em 1997. Surgiu então uma oportunidade de trabalho no Brasil e a família decidiu se mudar. Naquele momento, Balneário Camboriú continuava sendo apenas o destino das férias.

A cidade escolhida para iniciar a nova vida foi Curitiba, principalmente por causa do clima. Como Bariloche é uma região bastante fria, a família acreditava que a adaptação seria mais fácil.

Com o passar dos anos, conseguiram comprar um apartamento para veraneio em Balneário Camboriú. “Quando compramos um apartamento aqui, a gente pensou, nossa, é lá que a gente tinha que ficar o ano inteiro, né? E bom, a gente foi fazendo de tudo pra poder vir morar no litoral”.

Esteban é empresário e possui uma fábrica de chocolates. Segundo ele, uma das dificuldades encontradas no início foi a mão de obra especializada para esse tipo de trabalho. Apesar dos desafios, a mudança para Balneário Camboriú transformou a vida da família para melhor.

“Aqui eu me achei muito com o mar também, tenho meus gostos de andar na água, de mergulhar e de tudo isso, né? Então, eu também gosto muito de fazer passeios de moto aqui pela região”.

Segundo o empresário, Balneário Camboriú é muito valorizada entre os argentinos por oferecer qualidade de vida, infraestrutura e, em muitos casos, um custo menor do que destinos turísticos do próprio país.

Foto: Divulgação

“O litoral argentino tem praias de água muito fria, não são praias muito bonitas e são caras. Então, o cara vai gastar o mesmo dinheiro para conhecer outro país. Viajar para o exterior sempre é mais interessante e chamativo do que viajar por um litoral perto da tua casa, né? E se ainda custa mais barato, compensa”, explicou.

Para Esteban, a decisão da família de deixar a Argentina e, anos depois, trocar Curitiba por Balneário Camboriú foi motivada pela qualidade de vida encontrada no litoral catarinense. 

“Mãe, ‘tô’ ficando em Balneário Camboriú”

A diarista Dirlene Duffeck, de 54 anos, é natural de Cascavel, no Paraná. Ela veio a Balneário Camboriú pela primeira vez em 1995, acompanhando uma família que passaria 30 dias de férias na cidade. Quando esse período estava chegando ao fim, recebeu a informação de uma colega de que outra família, moradora de Balneário Camboriú, precisava de uma diarista.

Foi então que tomou uma decisão que mudaria completamente a própria história. “Fui no orelhão ali na 4ª Avenida, daí eu falei, mãe, tô ficando. Ela falou, como assim tá ficando? Tá voltando pra casa? Falei, não, eu vou ficar. Arrumei trabalho e fiquei”. Desde então, Dirlene construiu uma nova vida em Balneário Camboriú. 

Dirlene conta que vindo de uma cidade relativamente pequena do Paraná tudo aqui em Balneário Camboriú era novo, inclusive o medo de se perder nas ruas. Mas se antes a preocupação era essa, hoje é ela quem orienta turistas e moradores sem precisar pensar duas vezes.

Atualmente, a doméstica mantém uma rotina intensa de trabalho. Mora em Camboriú, em um apartamento próprio, e depende do transporte público para chegar ao trabalho em Balneário Camboriú. Em casa, divide a rotina com os dois filhos.

“De lá pra cá, a cidade cresceu muito, está evoluindo muito, melhorias muito na cidade, porque a Balneário Camboriú, ela é assim: ela te abraça, te envolve e não te deixa voltar mais”.

Agora, Dirlene recebe os parentes de Cascavel para conhecer Balneário Camboriú e quando vai para cidade natal, é apenas uma visitante, porque os vínculos da nova história estão no litoral Norte, em uma das cidades mais valorizadas do país.

“Eu diria assim, mil vezes obrigado. Muito obrigado Balneário Camboriú por ter me acolhido e acolhido minha família ao longo desses anos aqui. Muito obrigada cidade linda e maravilhosa”.

Idas e vindas até decidir ficar

Mesmo quando o coração pede para ficar, às vezes a realidade impede. Mas, com sorte, o tempo pode proporcionar uma nova oportunidade. Esse foi o caso de Dagmara Izolan, 52 anos, natural de Giruá, no noroeste do Rio Grande do Sul, que, anos depois, retornou para Balneário Camboriú. Ela faz parte dos mais de 576 mil gaúchos que migraram para Santa Catarina.

A história, assim como a de milhares de pessoas, começou com os veraneios em Balneário Camboriú. Em 1989, ela veio com a família passar as férias na cidade. O ciclo se repetiu pelos cinco anos seguintes, até que ela e o marido, Gefson Izolan, 60 anos, decidiram transformar o destino de férias na nova casa da família. 

Dagmara foi aprovada em um concurso do Governo do Estado para atuar como professora e o casal permaneceu em Balneário Camboriú até 2003. No entanto, a sogra adoeceu no Rio Grande do Sul e a família decidiu retornar ao estado de origem para ficar mais próxima dela.

Ouça a reportagem em áudio:

Mesmo distante, Balneário Camboriú continuou sendo o destino preferido da família nas férias. Morando em Santo Ângelo e com duas filhas, o casal viu a história se repetir quando a filha mais velha decidiu voltar a morar no litoral norte.

Anos depois, a filha caçula foi aprovada no vestibular para estudar em Florianópolis. Com as duas filhas vivendo em Santa Catarina, Dagmara e o marido se viram novamente sozinhos no Rio Grande do Sul. Foi então que decidiram voltar para a cidade da qual nunca deixaram de gostar.

E não é só o casal e as filhas que fizeram esse trajeto saindo do Rio Grande do Sul em direção à Santa Catarina. A comunidade gaúcha é a maior entre os migrantes que vivem no Estado, e Balneário Camboriú acompanha essa realidade. 

Entre as tradições preservadas na cidade turística estão o Acampamento Farroupilha, o Grupo Mateada Tradição Gaúcha, e as cavalgadas, que mantêm viva a cultura do Rio Grande do Sul no litoral catarinense.

Um lugar para recomeçar

Ao longo de 62 anos, Balneário Camboriú cresceu impulsionada por pessoas que trouxeram consigo diferentes sotaques, costumes, culturas e sonhos. São trabalhadores, empresários, professores, comerciantes e famílias inteiras que ajudaram a transformar Balneário Camboriú em uma das cidades mais conhecidas do Brasil.

Mais do que prédios altos, praias ou atrações turísticas, a história do município também é escrita por quem escolheu chamar Balneário Camboriú de lar. 

Afinal, como diz o próprio hino da cidade: “Cidade Hospitaleira, quem a conhece nunca mais a esquecerá”.

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