Você sabia que um dos alimentos mais básicos e que faz parte da dieta de metade da população mundial também é produzido em Camboriú? O alimento em questão é o arroz, cereal cultivado e consumido em todos os continentes, destinado quase exclusivamente à alimentação humana. A produção de arroz é responsável pela maior movimentação econômica da agricultura de Camboriú.
Em nível nacional, o Brasil ocupa o nono lugar no ranking mundial de produção de arroz e é o maior produtor fora da Ásia. Em 2024, a produção total do cereal no país foi de 10,6 milhões de toneladas, colhidas em 1,6 milhão de hectares, com produtividade média de 6,7 toneladas por hectare.
O Rio Grande do Sul lidera a produção nacional de arroz, com cerca de 8 milhões de toneladas por safra, respondendo pela maior parte do cereal cultivado no país. Na sequência, aparece Santa Catarina, com aproximadamente 1,2 milhão de toneladas, consolidando-se como o segundo maior produtor brasileiro. Tocantins e Mato Grosso completam a lista dos principais estados produtores.
Em Santa Catarina, o arroz irrigado é a principal modalidade de cultivo. A atividade está entre as mais importantes do setor agrícola e faz parte da rotina de centenas de produtores. Em 2025, a produção estadual ficou entre 1,2 e 1,3 milhão de toneladas, registrando alta de 12,2% em relação à safra anterior, impulsionada por um rendimento histórico nas lavouras.
Produzir mais, ganhar menos
Apesar da boa safra, os agricultores têm enfrentado dificuldades na comercialização dos grãos, já que o valor pago pela saca é inferior ao custo de produção. Os reflexos desse cenário também são sentidos em Camboriú.
Segundo a Epagri/Cepa, o produtor recebe, em média, cerca de R$ 53,69 por saca de 50 quilos. No entanto, para cobrir o custo operacional total da lavoura, seria necessário comercializar a saca por, pelo menos, R$ 72,56. Com isso, embora o arroz ocupe a maior área cultivada do município, a atividade tem proporcionado uma margem de lucro cada vez menor aos produtores.
Dados da estimativa da safra 2025/2026 mostram que Camboriú possui 879 hectares destinados ao cultivo de arroz, com produção estimada em 7.472 toneladas e produtividade média de 8.500 quilos por hectare. O grão é a principal cultura agrícola do município, superando com ampla vantagem outras produções, como mandioca de mesa e mandioca para indústria. Apesar da alta produtividade, a queda no preço pago ao produtor tem comprometido a rentabilidade da atividade.
A rotina de quem vive da lavoura
Na propriedade de Gilson Porto, agricultor nascido em Camboriú, cerca de 40 hectares são destinados ao cultivo de arroz, em parceria com o irmão. Para complementar a renda, a família também cria gado, produz sementes de arroz, cultiva milho e mantém outras atividades.
Uma das estratégias adotadas pela família é a produção de sementes certificadas de arroz. Registrado como produtor de sementes junto ao Ministério da Agricultura, Gilson explica que essa atividade agrega valor à produção e ajuda a reforçar a renda da propriedade.
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“Eu também planto uma parte, uns 12 hectares de terra que é pra semente. Eu sou produtor de sementes. Eu sou registrado no Ministério da Agricultura como produtor de sementes, daí eu planto uns 2 mil sacos, daí eu vendo para um cara que faz a semente, ele é sementeiro, daí eu planto pra ele e ele me paga uma porcentagem. Aí ajuda um pouquinho na renda, porque a coisa tá feia”, explicou o produtor.
Diferentemente do arroz cultivado para consumo, a produção de sementes certificadas começa com o plantio de uma semente básica, desenvolvida por instituições de pesquisa ou empresas especializadas. A partir desse material, o agricultor multiplica a variedade em uma lavoura conduzida sob rigoroso controle técnico, com acompanhamento desde o plantio até a colheita. Durante todo o ciclo, são feitas inspeções para garantir a qualidade genética e sanitária da produção.
Após a colheita, as sementes passam por beneficiamento, limpeza, secagem e testes laboratoriais para avaliar a germinação, o vigor e a pureza. Somente depois de aprovadas, recebem a certificação e são comercializadas para outros produtores, que as utilizam no plantio de novas lavouras.
Apesar dessa alternativa para diversificar a renda, a principal fonte de receita da propriedade continua sendo a produção de arroz, que enfrenta um momento de baixa rentabilidade. Conforme relato do produtor, houve um período em que a saca chegou a ser comercializada entre R$ 80 e R$ 100. Hoje, porém, o valor pago caiu significativamente, enquanto os custos de produção permaneceram elevados.
“Hoje, pode conversar com qualquer produtor de arroz: ele só vai empatar (o valor), ele não tem lucro”, destacou Gilson.
Importação de países vizinhos ajuda na queda de preço
Mesmo sendo um dos maiores produtores de arroz do mundo, o Brasil continua importando o cereal para complementar o abastecimento interno. Os principais fornecedores são os países do Mercosul, especialmente Paraguai, Uruguai e Argentina. No primeiro trimestre de 2026, o Paraguai consolidou-se como o maior exportador de arroz para o mercado brasileiro, respondendo por cerca de 82% de todo o volume embarcado pelo país vizinho.
A entrada constante de arroz importado aumenta a oferta do produto no mercado brasileiro e contribui para manter os preços mais baixos ao consumidor. Por outro lado, produtores nacionais, principalmente do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, afirmam que enfrentam dificuldades para competir, já que os preços pagos pelo grão permanecem abaixo dos custos de produção
“Aí não vende, não tem preço, o arroz já é uma coisa que só o ser humano come, poucos animais comem, não é como o milho e outros cereais, são usados para alimentar os animais. O arroz não, o arroz é só pra comer, só pro consumo humano. Aí se tem bastante arroz, aí não tem preço”, detalhou Gilson.
Os números da Epagri/Cepa confirmam esse cenário. O levantamento aponta que o preço mínimo para cobrir os custos de produção é de R$72,56 por saca. Como o valor pago atualmente ao produtor gira em torno de R$52,00, a atividade opera com rentabilidade comprometida. O estudo também mostra que as despesas com arrendamento de terras, insumos e serviços mecânicos representam a maior parte dos custos da lavoura.
Diversificar para continuar no campo
Para continuar na atividade, o agricultor precisou diversificar as fontes de renda. Além da produção de arroz, ele mantém uma pequena criação de gado, realiza serviços com máquinas agrícolas e investe em outras atividades para complementar o orçamento da família.
Relembrando a trajetória, Gilson conta que nasceu na agricultura e, desde pequeno, teve o incentivo do pai para seguir na atividade.
“Quando eu era pequeno, ele não me deu um brinquedo. Deu-me uma foice para roçar os pastos. Eu tinha cinco, seis anos de idade. Ele nunca me deixou em casa; levava-me junto com ele”, contou.
Com décadas dedicadas ao campo, o produtor afirma que a realidade da agricultura mudou completamente. Se antes era possível manter a família com pequenas áreas cultivadas e trabalho manual, hoje a mecanização exige investimentos cada vez maiores.
“Hoje, a agricultura se bandeou para o outro lado. Tem que ter mais área e máquina grande. Naquele tempo, nós fazíamos tudo manual. Quaisquer três hectares de terra davam para sobreviver. Não tinha luxo, não tinha carro, não tinha moto, não tinha trator, não tinha nada em que gastar dinheiro”, recordou.
Mesmo com o avanço da tecnologia e o aumento da produtividade das lavouras, Gilson afirma que o maior desafio deixou de ser produzir mais e passou a ser obter rentabilidade suficiente para continuar no campo.